Como a educação midiática pode ajudar no combate às desinformações

Um olhar mais crítico para os produtos e serviços disponíveis na mídia pode diminuir os riscos de compartilhamento de boatos e informações falsas
Laís Arcanjo (12/06/2020 - ConfereAí e Jornal Commercio)

Um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT) apontou que uma notícia falsa tem 70% mais chances de viralizar do que uma notícia verdadeira. E isso não é “fake news”. De acordo com a pesquisa, informações falsas circulam com mais velocidade, de forma mais profunda e com alcance maior do que fatos. E quando o tema da notícia é política, a desinformação se espalha três vezes mais rápido. Uma das principais formas de combater isso é com a educação midiática (media literacy).

“Educação midiática é uma alfabetização que a gente faz em relação à mídia. De como que a gente recebe, filtra e compartilha os conteúdos que passam no Whatsapp, nas redes sociais e nas próprias notícias. É como aprendemos a fazer uma leitura crítica desses conteúdos, para que a gente possa se informar e agir, tomar melhores decisões em relação a questões que influenciam a sociedade”, explica Nina Weingrill, co-fundadora da Énois Conteúdo e da Escola de Jornalismo, primeira escola de jornalismo online do Brasil.

Essa modalidade já tem sido aplicada nos sistemas educacionais de alguns países. Finlândia, Dinamarca, Holanda, Suécia e Estônia estão no topo do Índice de Alfabetização em Mídia de 2019, realizado pela European Policies Initiative (EuPI) do Open Society Institute, na Bulgária. A Finlândia está na primeira posição entre 35 países considerados os mais bem instrumentalizados para lidar com o impacto de notícias falsas devido à qualidade da sua educação, à mídia gratuita e à alta confiança entre as pessoas, segundo pontos destacados na pesquisa. Para eles, um sistema de educação pública forte e robusto, tendo a educação para as mídias presente nas abordagens, é uma importante arma para combater a desinformação.

Mas esse é um trabalho a ser realizado a passos largos no Brasil, como declara Ana Luiza Aguiar, pesquisadora do projeto de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso e a Informação, da Universidade de São Paulo (USP): “A alfabetização midiática é o caminho mais sólido para se combater a desinformação, mas é um caminho longo e que só vai trazer resultados a médio ou longo prazo. Ensinar as pessoas a desconfiarem de informações randômicas que chegam nos seus Whatsapps ou nas suas redes sociais é uma parte importantíssima do processo, mas o número de variáveis que leva uma pessoa a acreditar ou não na informação que recebe é muito grande. Vai desde como a informação é apresentada (áudio, vídeo, link para site) até detalhes como o grau de intimidade com a pessoa que te passou a informação, passando por faixa etária, grau de instrução e grau de engajamento político/social”.

Para ela, não será a atual geração que conseguirá parar a desinformação. Mas, com o trabalho desenvolvido nas escolas atualmente, a futura geração de adultos conseguirá transformar esse cenário. “Quando jovens e adolescentes são ensinados a pensar e a questionar, não apenas a escrever e fazer contas, eles passam a ter um entendimento mais claro do que acontece ao seu redor. E com isso conseguem filtrar naturalmente a informação a que são expostos”, completa.
No Brasil, a temática já faz parte da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), podendo ser ensinada e discutida nas unidades de ensino. No colégio Salesiano do Recife, as aulas de Cidadania Digital têm estimulado os alunos a entender melhor suas relações com as redes sociais e a internet, além de saber como analisar informações e produzir um diálogo respeitoso dentro do ambiente virtual.
A coordenadora de Tecnologia Educacional do colégio Salesiano do Recife, Joselma Silva, conta que as aulas geram reflexão entre os alunos, criando um paralelo com a vida dentro e fora da internet. “Inicialmente, perguntamos o que ele [o aluno] entende de cidadania, a cidadania que ele exerce no mundo em que ele vive, presencialmente, e daí fazemos a ponte para a cidadania digital, a responsabilidade nesse ambiente virtual, ao uso de todas as ferramentas que são acessíveis para eles. A partir desse advento que estamos tendo nestas últimas décadas, cada vez mais percebemos a necessidade de a escola formar esse indivíduo para atuar nos ambientes online”.
Os pais também têm apoiado a inserção da temática na rotina de estudos escolares dos filhos. Pedro Henrique Moscoso, gestor empresarial, professor universitário e pai de Maria Luísa, 12 anos, aluna do sétimo ano do fundamental do Salesiano Recife, diz que ficou satisfeito com a atenção da instituição para as atitudes de seus alunos dentro do ambiente virtual. “Entendemos [eu e a mãe de Maria Luísa] ter sido muito importante para ela essa entrada de forma pedagógica e controlada no mundo do aprendizado digital. Mesmo com toda orientação que passávamos, entendíamos que o ambiente virtual é de certa forma sedutor e cheio de armadilhas, principalmente para as crianças e adolescentes”, relata. Maria Luísa complementa:“Gosto muito dessas aulas, acho muito importante porque nós aprendemos a tomar cuidado em redes sociais, em sites que acessamos, na internet em geral”.
A professora Joselma Silva também explica que esse aprendizado precisa ser compartilhado com os pais, de forma prática, tentando identificar diferentes tipos de mídia e interpretar as informações e mensagens enviadas nessas mídias. Elas incluem não apenas os conteúdos de texto que circulam em redes sociais, como também memes, vídeos virais, videogames e propagandas. “Essa necessidade permeia todas as áreas, deve ser trabalhada com as crianças e também os adultos, porque há uma falta de educação muito grande nos ambientes online, desde como se portar até o que compartilhar, até se proteger também. Um exemplo é a questão das ‘fake news’, que apresentamos aos alunos de uma forma muito leve, muito delicada, fazendo um paralelo com a fofoca em si, em como antigamente e como ainda existe ‘a senhorinha da janela’”.

Ferramentas de educação midiática te ajudam a não cair em desinformações

A professora e pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Ana Beatriz Carvalho, destaca que ao se fazer domínio da alfabetização midiática, as pessoas terão conhecimento de como se produzem desinformações, e então poderão evitar sua produção e disseminação. E, em um cenário pandêmico como o presente, a população fica ainda mais suscetível a acreditar nos boatos e informações não-verídicas, pela carga emocional envolvida no contexto.
“A maior parte das pessoas que não possui o letramento midiático serão dominadas pelas estratégias de disseminação de informações falsas de quem possui esse letramento. Por isso mesmo, é tão importante desenvolver ações de letramento midiático para todos. No cenário da pandemia, a situação é ainda mais complexa porque envolve o medo das pessoas diante de uma nova realidade bastante assustadora e desconhecida até mesmo para os cientistas. Nesse contexto desfavorável, a carga emocional potencializa ainda mais a limitação das pessoas na avaliação crítica das informações que circulam”.
Alguns meios de comunicação e organizações independentes já realizam iniciativas para educar os cidadãos em questões básicas de jornalismo e reforçar a capacidade de ler notícias de forma crítica.
A UNESCO reconhece o papel da informação e da mídia na sociedade e, por isso, criou um material sobre alfabetização midiática e informacional. A instituição acredita ser importante empoderar cidadãos a “compreender as funções da mídia e outros provedores de informação, a avaliar criticamente seus conteúdos e, como usuários e produtores de informação, tomar decisões com base nos dados disponíveis”.
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